Desde o início da humanidade
um sentimento parece ter nos acompanhado e evoluído conosco: o medo. Talvez o
mais primitivo de todos os sentimentos, o medo move montanhas. Foi por causa
dele, em sua forma mais bruta, que o homem começou a andar em grupos, a buscar
abrigo, formar clãs e compartilhar experiências, estabelecendo assim as bases
para a formação do que hoje conhecemos como sociedade.
Ao longo do tempo, entretanto,
este sentimento foi se tornando tão complexo quanto o desenvolvimento
tecnológico promovido pela raça humana. O que antes era despertado pela pura
necessidade de sobrevivência foi se tornando cada vez mais sofisticado, ganhando
“aliados”, como fobias e angústias, e tornando os indivíduos cada vez mais
reféns das sensações aversivas oriundas dele e de seus similares.
Hoje vivemos em uma
sociedade de controle, na qual tentamos controlar tudo e todos constantemente a
fim de amenizarmos os sentimentos advindos da promoção de tanto terror. Tememos
sermos deixados para trás, sermos assaltados, sequestrados, assassinados, não
termos o carro do ano, perdermos o emprego, etc., e, em função disto, ao invés
de atingir o controle que se esperava, somos totalmente controlados por nossos
medos e angústias.
Ser submisso ao medo traz
consigo uma consequência imediata e que remonta aos nossos ancestrais
paleolíticos – se não podemos controlar, devemos lutar contra. Estabelece-se
então a base rudimentar para o raciocínio por detrás de toda e qualquer guerra,
evento que marca de vermelho toda a história da humanidade.
O texto de Leonardo Boff,
“Guerra e Paz” trata exatamente de como podemos ir na contramão deste que parece
ser um fenômeno tão comum e banalizado atualmente. Primeiramente é necessário
entender que as guerras de hoje em dia não se tratam mais de sobrevivência ou
da luta por um espaço. Elas visam, como tudo no capitalismo, atender à demanda
de grupos específicos que podem lucrar com isso, custe o que custar.
O chamado imperialismo,
disfarçado em seus falsos ideais de liberdade, democracia e livre comércio,
corrompe a tudo e a todos, a partir dos próprios indivíduos que aceitam e se
submetem a este modelo de controle nefasto, nos fazendo acreditar que somos
melhores que os outros e que um ser humano pode decidir se outro deve viver ou
morrer em função de interesses específicos.
Desesperador como parece o
cenário atual, Boff nos chama a atenção para o fato de que em meio a todo este
caos são as pequenas ações que ao se somarem podem fazer a diferença. Para cada
guerra, há um grupo pedindo paz, para cada conflito, há pelo menos uma pessoa
visando resolvê-lo de maneira pacífica. Como bem coloca em seu texto: “se queres
a paz, prepara a paz e não a guerra”.
Se, ao invés de ficarem se
questionando se algo pode ser feito ou se é válido fazer algo quando tantos
outros fazem o contrário, cada um fizer o gesto em prol da paz que considerar
válido, pouco a pouco esta ideia pode se difundir, desconstruindo os valores
engessados que se tem atualmente, gerando uma nova ética universal a favor da
paz e do fazer o bem.
No entanto, isto só será
possível se aceitarmos que temos dualidades, que não somos um ou outro, bem ou
mal, justo ou injusto, certo ou errado, mas que somos os dois, o tempo todo, o
que não nos impede de escolhermos o curso mais adequado para o todo, não apenas
para nós enquanto indivíduos. Entendermos também, que podemos sentir medo, mas
não devemos ser controlados por ele e sim, nos unirmos para lidar com ele. A
grande dúvida que permanece é quanto sangue mais precisará ser derramado para
que se entenda essa mensagem.
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