quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Sobre ciência, evidências e achismos


Quem me conhece sabe que sou um árduo defensor da Ciência. Sem dúvidas, assumir este "rótulo" (pessoalmente não tenho problemas com rótulos que eu mesmo escolho - sou comunista, behaviorista, ateu etc.) já suscita todo o tipo de julgamento de várias pessoas, em especial das defensoras de métodos ditos alternativos e de pessoas mais ligadas a algum tipo de noção de espiritualidade.
Há uma série de equívocos nos comentários que me são dirigidos quando critico alguma coisa pela falta de qualquer rigor científico ou evidência verificável. O primeiro, e mais comum, é a crítica que sai pela culatra: a de que a ciência não é uma fonte de verdades e que os métodos científicos falham. Ufa, ainda bem que ciência não é religião. 
Os principais motivos pelos quais eu admiro a ciência é a preocupação da mesma em investigar, questionar, desconstruir, submeter a críticas da comunidade científica, a reparar erros quando são encontrados e, acima de tudo, a não defender verdades absolutas. Não se trata apenas de ir para o laboratório e manipular variáveis (que é um método científico muito válido, mas não é o único). Trata-se de investigar a realidade e submeter conclusões sobre o que foi observado para que os outros a questionem – afinal, não há observador neutro. A dúvida, e não a certeza, é o motor da ciência.
Qualquer coisa que fuja disso não é ciência - é manipulação da informação, que é justamente o que acontece quando achados científicos são veiculados pela mídia, em geral. Não raramente, o que se encontra em um artigo científico publicado é muito diferente do que acaba sendo veiculado pela mídia e essa veiculação distorcida de informações favorece em muito essa noção de que a ciência trabalha com verdades cristalizadas. Uma das principais estratégias utilizadas para distorcer achados científicos é mascarar correlação, transformando-a em causalidade. Um fato estar relacionado a outro não torna aquele causa deste.
Outro equívoco bastante frequente diz respeito à lógica dicotômica daqueles que não querem "largar o osso". Criticar algo pela falta de evidências científicas automaticamente me torna defensor daquilo que a pessoa critica. Um exemplo muito recorrente nas minhas conversas diz respeito à homeopatia. Sempre tive fortes críticas em relação a esse método pela ausência de qualquer estudo conclusivo que verificasse a eficácia desse tipo de terapia. As reações a essas colocações eram praticamente unânimes, independentemente de quem fosse a pessoa: "ah, mas os remédios tradicionais também não têm evidências".
Obviamente, isso é uma grande baboseira. Não são poucas as críticas que eu tenho à indústria farmacêutica, em especial por ela representar um dos principais braços de opressão do capitalismo. Ainda assim, nenhum remédio é aprovado por ter evidências de 100% de sucesso. Com todos os problemas e questões que devem ser levantadas sobre manipulação de dados e estudos duvidosos na indústria farmacêutica, ainda há evidências mais sólidas a favor das terapias tradicionais do que das terapias ditas alternativas.
Dificilmente um médico irá dizer (eu não conheço sequer um) que um remédio vai funcionar com certeza. Já no que diz respeito a homeopatia e outras terapias do tipo, com frequência o que se escuta é que é "mais natural", "fulano usou e sarou muito rápido", "vários pacientes utilizam e relatam melhora", “é garantido” etc.
É tão evidente a confusão entre correlação e causalidade nessas situações que me surpreende que a homeopatia tenha avançado tanto como avançou. O corpo já tem um ciclo natural de enfrentamento de ameaças. Esse ciclo é afetado diretamente por condições ambientais, biológicas e também pelas condições chamadas de psicológicas (não simpatizo com essa divisão "biopsicossocial", mas a uso para ficar mais didático). 
Não levar essas e outras variáveis em consideração ao verificar a melhora de um paciente sob uso de homeopatia (assim como de remédios tradicionais) já demonstra a falta de rigor científico e de descompromisso com a população. Estabelecendo-se uma relação causal o lucro está garantido e é isso que interessa.
Finalizando a questão da homeopatia, um exemplo de boa ciência se encontra no seguinte estudo: http://www.universoracionalista.org/homeopatia-nao-funciona-diz-estudo/ (Ah, é um bom estudo porque prova o que eu digo? Não. É porque se preocupa em fazer uma investigação exaustiva, ancorando-se em um método impecável, além de exposição à comunidade científica para averiguação e críticas bem embasadas que possam provar errado o que foi encontrado - que até o momento não apareceram).
Evidências são fundamentais em qualquer esfera de nossas vidas. Quando alguém nos fala que mulheres estão se fazendo de vítimas, que negro e pobre são bandidos, que LGBTs são promíscuos, que tais atos são coisas de pessoas sem deus no coração e tantas outras barbaridades que ouvimos por aí, é na ciência que vamos encontrar argumentos sólidos para dizer: "Prezadx, não interessa o que você acha. Isso não é uma questão de opinião. As evidências são inquestionáveis no que diz respeito à realidade das mulheres, dos negros, pobres, lgbts, pessoas de outras religiões que não a dominante em seus países. Se você defende qualquer uma dessas coisas o que lhe falta é uma verificação de realidade. Negar a realidade, as evidências, não lhe dá o direito de oprimir os outros, não dá a suas afirmações o status de "opinião", apenas demonstra o quanto sua resistência a evidências concretas é alta".
Há uma tendência muito marcada na sociedade em blindar coisas que coincidem com suas crenças religiosas ou pessoais ao método científico. Esse pensamento se estende para além da medicina, da psicologia e de padrões de vida ditos saudáveis. É essa mesma blindagem a dados baseados em evidências que se esconde atrás do discurso do opressor. A obsessão em legitimar discursos que validem crenças pessoais, ignorando toda e qualquer evidência contrária é um dos principais - senão o principal desafio - encontrado para despertar a consciência de oprimido no oprimido.
Devemos aprender a exercitar nosso olhar e escuta para questionar e contextualizar tudo aquilo com o qual nos defrontamos. Se é uma afirmação sem evidências, temos que questionar a afirmação e buscar desconstruí-la, além de buscar entender porque ela se propaga. Se é baseada em evidências, devemos averiguar em qual contexto o dado foi levantado e qual o método utilizado para levantar os dados e divulgar cada vez mais estudos cujos métodos são válidos.
A revolução não pode, de forma alguma ser tecnocrática. No entanto, uma revolução que não tenha na ciência sua principal ferramenta é mero achismo e perpetuadora de opressão.

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