Quem
me conhece sabe que sou um árduo defensor da Ciência. Sem dúvidas, assumir este
"rótulo" (pessoalmente não tenho problemas com rótulos que eu mesmo
escolho - sou comunista, behaviorista, ateu etc.) já suscita todo o tipo de
julgamento de várias pessoas, em especial das defensoras de métodos ditos
alternativos e de pessoas mais ligadas a algum tipo de noção de espiritualidade.
Há
uma série de equívocos nos comentários que me são dirigidos quando critico
alguma coisa pela falta de qualquer rigor científico ou evidência verificável.
O primeiro, e mais comum, é a crítica que sai pela culatra: a de que a ciência
não é uma fonte de verdades e que os métodos científicos falham. Ufa, ainda bem
que ciência não é religião.
Os
principais motivos pelos quais eu admiro a ciência é a preocupação da mesma em
investigar, questionar, desconstruir, submeter a críticas da comunidade
científica, a reparar erros quando são encontrados e, acima de tudo, a não
defender verdades absolutas. Não se trata apenas de ir para o laboratório
e manipular variáveis (que é um método científico muito válido, mas não é o
único). Trata-se de investigar a realidade e submeter conclusões sobre o que
foi observado para que os outros a questionem – afinal, não há observador
neutro. A dúvida, e não a certeza, é o motor da ciência.
Qualquer
coisa que fuja disso não é ciência - é manipulação da informação, que é
justamente o que acontece quando achados científicos são veiculados pela mídia,
em geral. Não raramente, o que se encontra em um artigo científico publicado é
muito diferente do que acaba sendo veiculado pela mídia e essa veiculação
distorcida de informações favorece em muito essa noção de que a ciência
trabalha com verdades cristalizadas. Uma das principais estratégias utilizadas
para distorcer achados científicos é mascarar correlação, transformando-a em
causalidade. Um fato estar relacionado a outro não torna aquele causa deste.
Outro
equívoco bastante frequente diz respeito à lógica dicotômica daqueles que não
querem "largar o osso". Criticar algo pela falta de evidências científicas
automaticamente me torna defensor daquilo que a pessoa critica. Um exemplo
muito recorrente nas minhas conversas diz respeito à homeopatia. Sempre tive
fortes críticas em relação a esse método pela ausência de qualquer estudo
conclusivo que verificasse a eficácia desse tipo de terapia. As reações a essas
colocações eram praticamente unânimes, independentemente de quem fosse a pessoa:
"ah, mas os remédios tradicionais também não têm evidências".
Obviamente,
isso é uma grande baboseira. Não são poucas as críticas que eu tenho à
indústria farmacêutica, em especial por ela representar um dos principais
braços de opressão do capitalismo. Ainda assim, nenhum remédio é aprovado por
ter evidências de 100% de sucesso. Com todos os problemas e questões que devem
ser levantadas sobre manipulação de dados e estudos duvidosos na indústria
farmacêutica, ainda há evidências mais sólidas a favor das terapias tradicionais do que
das terapias ditas alternativas.
Dificilmente
um médico irá dizer (eu não conheço sequer um) que um remédio vai funcionar com
certeza. Já no que diz respeito a homeopatia e outras terapias do tipo, com
frequência o que se escuta é que é "mais natural", "fulano usou
e sarou muito rápido", "vários pacientes utilizam e relatam melhora",
“é garantido” etc.
É
tão evidente a confusão entre correlação e causalidade nessas situações que me
surpreende que a homeopatia tenha avançado tanto como avançou. O corpo já tem
um ciclo natural de enfrentamento de ameaças. Esse ciclo é afetado diretamente
por condições ambientais, biológicas e também pelas condições chamadas de
psicológicas (não simpatizo com essa divisão "biopsicossocial", mas a
uso para ficar mais didático).
Não
levar essas e outras variáveis em consideração ao verificar a melhora de um
paciente sob uso de homeopatia (assim como de remédios tradicionais) já
demonstra a falta de rigor científico e de descompromisso com a população.
Estabelecendo-se uma relação causal o lucro está garantido e é isso que
interessa.
Finalizando
a questão da homeopatia, um exemplo de boa ciência se encontra no seguinte
estudo: http://www.universoracionalista.org/homeopatia-nao-funciona-diz-estudo/
(Ah, é um bom estudo porque prova o que eu digo? Não. É porque se preocupa em
fazer uma investigação exaustiva, ancorando-se em um método impecável, além de
exposição à comunidade científica para averiguação e críticas bem embasadas que
possam provar errado o que foi encontrado - que até o momento não apareceram).
Evidências
são fundamentais em qualquer esfera de nossas vidas. Quando alguém nos fala que
mulheres estão se fazendo de vítimas, que negro e pobre são bandidos, que LGBTs
são promíscuos, que tais atos são coisas de pessoas sem deus no coração e
tantas outras barbaridades que ouvimos por aí, é na ciência que vamos encontrar
argumentos sólidos para dizer: "Prezadx, não interessa o que você acha.
Isso não é uma questão de opinião. As evidências são inquestionáveis no que diz
respeito à realidade das mulheres, dos negros, pobres, lgbts, pessoas de outras
religiões que não a dominante em seus países. Se você defende qualquer uma dessas coisas
o que lhe falta é uma verificação de realidade. Negar a realidade, as
evidências, não lhe dá o direito de oprimir os outros, não dá a suas afirmações
o status de "opinião", apenas demonstra o quanto sua resistência a
evidências concretas é alta".
Há
uma tendência muito marcada na sociedade em blindar coisas que coincidem com
suas crenças religiosas ou pessoais ao método científico. Esse pensamento se estende
para além da medicina, da psicologia e de padrões de vida ditos saudáveis. É
essa mesma blindagem a dados baseados em evidências que se esconde atrás do
discurso do opressor. A obsessão em legitimar discursos que validem crenças
pessoais, ignorando toda e qualquer evidência contrária é um dos principais -
senão o principal desafio - encontrado para despertar a consciência de oprimido
no oprimido.
Devemos
aprender a exercitar nosso olhar e escuta para questionar e contextualizar tudo aquilo com
o qual nos defrontamos. Se é uma afirmação sem evidências, temos que questionar
a afirmação e buscar desconstruí-la, além de buscar entender porque ela se propaga. Se é baseada em evidências, devemos
averiguar em qual contexto o dado foi levantado e qual o método utilizado para
levantar os dados e divulgar cada vez mais estudos cujos métodos são válidos.
A
revolução não pode, de forma alguma ser tecnocrática. No entanto, uma revolução
que não tenha na ciência sua principal ferramenta é mero achismo e perpetuadora
de opressão.
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