quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Sobre ciência, evidências e achismos


Quem me conhece sabe que sou um árduo defensor da Ciência. Sem dúvidas, assumir este "rótulo" (pessoalmente não tenho problemas com rótulos que eu mesmo escolho - sou comunista, behaviorista, ateu etc.) já suscita todo o tipo de julgamento de várias pessoas, em especial das defensoras de métodos ditos alternativos e de pessoas mais ligadas a algum tipo de noção de espiritualidade.
Há uma série de equívocos nos comentários que me são dirigidos quando critico alguma coisa pela falta de qualquer rigor científico ou evidência verificável. O primeiro, e mais comum, é a crítica que sai pela culatra: a de que a ciência não é uma fonte de verdades e que os métodos científicos falham. Ufa, ainda bem que ciência não é religião. 
Os principais motivos pelos quais eu admiro a ciência é a preocupação da mesma em investigar, questionar, desconstruir, submeter a críticas da comunidade científica, a reparar erros quando são encontrados e, acima de tudo, a não defender verdades absolutas. Não se trata apenas de ir para o laboratório e manipular variáveis (que é um método científico muito válido, mas não é o único). Trata-se de investigar a realidade e submeter conclusões sobre o que foi observado para que os outros a questionem – afinal, não há observador neutro. A dúvida, e não a certeza, é o motor da ciência.
Qualquer coisa que fuja disso não é ciência - é manipulação da informação, que é justamente o que acontece quando achados científicos são veiculados pela mídia, em geral. Não raramente, o que se encontra em um artigo científico publicado é muito diferente do que acaba sendo veiculado pela mídia e essa veiculação distorcida de informações favorece em muito essa noção de que a ciência trabalha com verdades cristalizadas. Uma das principais estratégias utilizadas para distorcer achados científicos é mascarar correlação, transformando-a em causalidade. Um fato estar relacionado a outro não torna aquele causa deste.
Outro equívoco bastante frequente diz respeito à lógica dicotômica daqueles que não querem "largar o osso". Criticar algo pela falta de evidências científicas automaticamente me torna defensor daquilo que a pessoa critica. Um exemplo muito recorrente nas minhas conversas diz respeito à homeopatia. Sempre tive fortes críticas em relação a esse método pela ausência de qualquer estudo conclusivo que verificasse a eficácia desse tipo de terapia. As reações a essas colocações eram praticamente unânimes, independentemente de quem fosse a pessoa: "ah, mas os remédios tradicionais também não têm evidências".
Obviamente, isso é uma grande baboseira. Não são poucas as críticas que eu tenho à indústria farmacêutica, em especial por ela representar um dos principais braços de opressão do capitalismo. Ainda assim, nenhum remédio é aprovado por ter evidências de 100% de sucesso. Com todos os problemas e questões que devem ser levantadas sobre manipulação de dados e estudos duvidosos na indústria farmacêutica, ainda há evidências mais sólidas a favor das terapias tradicionais do que das terapias ditas alternativas.
Dificilmente um médico irá dizer (eu não conheço sequer um) que um remédio vai funcionar com certeza. Já no que diz respeito a homeopatia e outras terapias do tipo, com frequência o que se escuta é que é "mais natural", "fulano usou e sarou muito rápido", "vários pacientes utilizam e relatam melhora", “é garantido” etc.
É tão evidente a confusão entre correlação e causalidade nessas situações que me surpreende que a homeopatia tenha avançado tanto como avançou. O corpo já tem um ciclo natural de enfrentamento de ameaças. Esse ciclo é afetado diretamente por condições ambientais, biológicas e também pelas condições chamadas de psicológicas (não simpatizo com essa divisão "biopsicossocial", mas a uso para ficar mais didático). 
Não levar essas e outras variáveis em consideração ao verificar a melhora de um paciente sob uso de homeopatia (assim como de remédios tradicionais) já demonstra a falta de rigor científico e de descompromisso com a população. Estabelecendo-se uma relação causal o lucro está garantido e é isso que interessa.
Finalizando a questão da homeopatia, um exemplo de boa ciência se encontra no seguinte estudo: http://www.universoracionalista.org/homeopatia-nao-funciona-diz-estudo/ (Ah, é um bom estudo porque prova o que eu digo? Não. É porque se preocupa em fazer uma investigação exaustiva, ancorando-se em um método impecável, além de exposição à comunidade científica para averiguação e críticas bem embasadas que possam provar errado o que foi encontrado - que até o momento não apareceram).
Evidências são fundamentais em qualquer esfera de nossas vidas. Quando alguém nos fala que mulheres estão se fazendo de vítimas, que negro e pobre são bandidos, que LGBTs são promíscuos, que tais atos são coisas de pessoas sem deus no coração e tantas outras barbaridades que ouvimos por aí, é na ciência que vamos encontrar argumentos sólidos para dizer: "Prezadx, não interessa o que você acha. Isso não é uma questão de opinião. As evidências são inquestionáveis no que diz respeito à realidade das mulheres, dos negros, pobres, lgbts, pessoas de outras religiões que não a dominante em seus países. Se você defende qualquer uma dessas coisas o que lhe falta é uma verificação de realidade. Negar a realidade, as evidências, não lhe dá o direito de oprimir os outros, não dá a suas afirmações o status de "opinião", apenas demonstra o quanto sua resistência a evidências concretas é alta".
Há uma tendência muito marcada na sociedade em blindar coisas que coincidem com suas crenças religiosas ou pessoais ao método científico. Esse pensamento se estende para além da medicina, da psicologia e de padrões de vida ditos saudáveis. É essa mesma blindagem a dados baseados em evidências que se esconde atrás do discurso do opressor. A obsessão em legitimar discursos que validem crenças pessoais, ignorando toda e qualquer evidência contrária é um dos principais - senão o principal desafio - encontrado para despertar a consciência de oprimido no oprimido.
Devemos aprender a exercitar nosso olhar e escuta para questionar e contextualizar tudo aquilo com o qual nos defrontamos. Se é uma afirmação sem evidências, temos que questionar a afirmação e buscar desconstruí-la, além de buscar entender porque ela se propaga. Se é baseada em evidências, devemos averiguar em qual contexto o dado foi levantado e qual o método utilizado para levantar os dados e divulgar cada vez mais estudos cujos métodos são válidos.
A revolução não pode, de forma alguma ser tecnocrática. No entanto, uma revolução que não tenha na ciência sua principal ferramenta é mero achismo e perpetuadora de opressão.

domingo, 10 de janeiro de 2016

O que é ateísmo



Definir o ateísmo é tarefa tão árdua quanto definir a religião. Muitas são as concepções erradas que se tem deste termo, em grande parte, alimentadas por grupos religiosos que apenas o enxergam como a opção dos imorais, e também alimentadas por aqueles que se intitulam ateus apenas para hostilizar aqueles que acreditam em qualquer forma de manifestação religiosa.
Contrastando com o vasto material que se pode encontrar a respeito da religiosidade, espiritualidade, experiência elementar – ou tantos outros termos que estejam no campo da fé – o que se encontra a respeito do ateísmo é bastante limitado. Disto pode-se inferir que, embora este problema tenha diminuído bastante nas últimas décadas, discutir religião – em especial sob o enfoque da negação da mesma – ainda encontra uma série de barreiras, seja naqueles que reprimem de maneira agressiva o ateísmo, seja naqueles que preferem adotar uma postura neutra e não discutir o tema.
O discurso religioso que a tudo e todos busca englobar, não deixa de fora o ateísmo, chegando a defender, como faz Rocha (2013), que este nada mais é que um ressentimento anticristão ou como afirma Lecompte (1996) “De fato, foi só em épocas e em regiões influenciadas pelo cristianismo que se encontrou o ateísmo ou um secularismo e materialismo chão evacuando todo sentido religioso. Conclui-se disso que se trata de um cristianismo mal recebido, mal compreendido e mal vivido que gera o ateísmo”.
Valério (2009) complementa essa distorção do que poderia ser o ateísmo ao colocar que “Quando o filósofo Paul Johannes Tillich disse que Deus é o símbolo fundamental da preocupação do homem (TILLICH, 2005) deixou declarada a impossibilidade do ateísmo verdadeiro. Ainda que o homem quisesse, seria impossível para ele a descrença em Deus, pois é como se trouxesse os genes da crença e da adoração em suas entranhas. De modo que o ateísmo não é uma realidade própria de dada cultura ou de nenhuma outra, pois no âmago do ser humano está a crença em Deus”.
Tais visões servem unicamente ao propósito de deslegitimar ou invalidar qualquer posição contrária à dominação religiosa excluindo a possibilidade de uma discussão franca e necessária sobre uma possível vida sem religião.
Frequentemente coloca-se o ateísmo apenas como uma negação de qualquer divindade ou religião (MINOIS, 1998). Esta definição não é suficiente, pois depende exclusivamente da religião para defini-lo. O ateísmo como corrente filosófica, de fato, tem seu berço nas religiões, pois é na direção de negá-las e negar a qualquer deus que se estabelece. Esta visão, no entanto, parece ignorar que já cedo somos ensinados a sermos curiosos e a questionar regras até que os que estão ao redor se cansem e comecem a reprimir esta curiosidade e questionamento, repetindo um padrão que se observa também na doutrinação religiosa e pela imposição de regras através de outras formas de controle.
Embora a divulgação do ateísmo tenha crescido muito a partir de autores como Richard Dawkins, Cristopher Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett – que desenvolveram importantes trabalhos no sentido de questionar a dominação religiosa em especial em instâncias políticas e educacionais – é com considerável radicalismo que os ateus vêm se apresentando.
Seja pare esses autores como para tantos outros ateus em diversas páginas do Facebook a premissa básica é de que toda e qualquer forma de manifestação religiosa é ruim ou perversa e, não raramente, busca-se combater a religião com a mesma hostilidade criticada em muitas dessas agências religiosas. É uma reação esperada, de certa forma, embora ineficaz, uma vez que frente ao controle aversivo a tendência é de que o contra-controle seja igualmente aversivo, visando anular a fonte inicial de controle.
Uma alternativa a essa postura consiste em deixar de lado visões dicotômicas e julgamentos morais do comportamento religioso e se lançar a uma análise funcional destes comportamentos, sem buscar legitimá-los ou invalidá-los, mas buscando entender sua função para os indivíduos para que aí sim seja possível propor alternativas.
O ateísmo, deve combater sim, dominações religiosas, mas não visando destruir a religião e sim, combater opressões. Deve ser, portanto, em minha visão, um movimento de enfrentamento àquilo que é imposto de maneira coercitiva ou persuasiva manipuladora e impassível de questionamentos, em outras palavras, às regras dogmáticas. Não muito diferente daquilo que se espera em um trabalho terapêutico, ou no pensamento filosófico, por exemplo. Ou seja, um trabalho de desconstrução e questionamento da realidade, o qual exige o reconhecimento das limitações humanas.
Neste ponto, certos defensores de noções religiosas teriam a dizer que o ateísmo e a experiência religiosa em pouco ou nada diferem. No entanto, por mais que se busque se distanciar das religiões institucionalizadas, as ideias de alma, transcendência, religiosidade, espiritualidade, busca por sentido e necessidades fundamentais tem suas origens em organizações religiosas e, com grande frequência, caminham na direção de legitimar a existência de algo que atribua um sentido a tudo e que seja além do ser humano, alienando o ser humano a algo supra-humano.
O ateísmo, por outro lado, deve partir do princípio de que não há a necessidade de uma busca por sentido absoluto; de uma transcendência para se ser humano. De fato, para o ateísmo, ser humano, deve residir em ser, e não na busca do ser. Isto não implica, no entanto, em abrir mão de morais e valores, ou de ser imediatista e individualista, como os críticos de plantão fazem questão de afirmar. Pelo contrário, ser para um ser humano exige ser social, ou seja, ser com o outro e a partir do outro.
Isto irá, indubitavelmente, demandar uma série de regras e dispositivos de organização e de controle para que tal convivência com o outro seja possível. Regras estas que devem ser construídas com o outro e a partir do outro, sem buscar entidades metafísicas externas que transcendam esta relação, tampouco que se engessem em algum sentido que vise sanar o medo do vazio existencial, este resultante da constatação de nossas limitações e de nossa finitude.
Mais ainda, o ateísmo tenta romper com o paradigma frustrador de que sempre há algo melhor e mais perfeito que deve ser buscado, admirado e invejado. É a tentativa de devolver ao ser humano a sua condição de ser humano, ao invés de ser transcendente ou ser divino.
Pode-se levantar a hipótese de que os comportamentos religiosos se estabeleceram como práticas culturais a partir de sua função última de aliviar o sofrimento humano perante a frustração e ansiedade decorrentes da privação de sentido imposta pelo real em tempos onde não havia recursos suficientes para se buscarem respostas seja sobre o mundo externo ou sobre o mundo debaixo da pele.
Tais práticas foram passadas adiante, de geração para geração, como estratégias supostamente eficazes de esquiva da frequente privação de sentido em nossas vidas. Milênios se passaram e talvez esteja na hora de se questionar a real função de tais comportamentos na sociedade contemporânea e abrir a discussão para alternativas mais eficazes e menos cristalizadas de enfrentamento do sofrimento humano.
Neste sentido, a preocupação última de uma visão ateísta de mundo é a de resgatar o papel do ser humano como únicos responsáveis por suas escolhas buscando devolver-lhe sua liberdade, dentro do que é possível, vivendo-se em sociedade.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Retrospectiva 2015 e votos para 2016

2015: O abominável ano interminável. Ou pelo menos essa parece ser a impressão deixada em muitos - eu incluso - por um ano marcado por retrocessos, exposição intensa de discursos de ódio (que, para já tirar a "polêmica" do caminho, é muito diferente de emitir opinião) e dados alarmantes referentes à toda sorte de violência contra mulheres, negrxs, lgbts, imigrantes e outras populações historicamente violadas em seus direitos mais básicos.
Há de se ressaltar, no entanto, que foi também um ano com dois brilhantes exemplos de luta e resistência - a dos professores aqui no Paraná e em São Paulo, no primeiro semestre, e a dos estudantes secundaristas em São Paulo, no segundo semestre. Além disso, a formação da Frente Povo Sem Medo e o fortalecimento do Espaço Unidade de Ação mostraram que a esquerda brasileira não está dormente como se afirma por aí. Por fim, a resistência incansável dos representantes do PSOL no Congresso Nacional, bem como de nossxs militantes, às barbáries de Eduardo Cunha e sua tropa é injeção fundamental de ânimo para o ano que se segue, este que traz como única certeza a de que a luta será ainda mais intensa.
Estando mais ativo e próximo da militância como estive em 2015 - uma de minhas vitórias pessoais e que pretendo manter em 2016 - fui levado a questionar inúmeras concepções, a rever pontos de vista e a aprender muita coisa nova. No entanto, acredito que a reflexão mais importante que venho fazendo ao longo deste período recente diz respeito à maneira como me comunico. 
A observância de exposições e argumentações diversificadas aliada ao meu próprio processo psicoterapêutico me fizeram levantar questão sobre muitos de meus vícios de comunicação, assim como me deixou mais atento a padrões adotados por aquelxs com quem tenho algum contato ou pelas mídias as quais tive acesso.
Lembro-me bem de uma das primeiras lições que tive já no começo deste ano por intermédio indireto de colegas militantes. Com frequência compartilhava textos ou escrevia posts no Facebook em que eu fazia alusão a algum fato historicamente incorreto dizendo aos que acreditavam naquilo que fossem ler um livro de História.
Um texto de um colega, não relacionado com os meus posts, fazia crítica a este tipo de discurso e me pôs, imediatamente, a refletir acerca da arrogância e do academicismo que permeavam essas e tantas outras publicações minhas na rede social e fora dela, igualmente. 
Obviamente, não quer dizer que isto cessou completamente, mas foi um importante primeiro passo na direção de me fazer ficar muito mais atento à maneira como expunha minhas opiniões - não só nas redes sociais, mas pessoalmente, também - embora não fosse a primeira vez que tivesse sido convidado a refletir sobre esse padrão arrogante de comunicação.
Uma tarefa de grande valor que assumi este ano foi a de diretor de comunicação do Centro Acadêmico de Psicologia da Tuiuti. Lembro de ter achado irônico eu estar assumindo uma posição como esta, uma vez que uma de minhas principais queixas na terapia é a minha dificuldade em me comunicar com as pessoas. 
Em uma ocasião em especial, a organização de uma Jornada Acadêmica de Psicologia, as minhas habilidades de comunicação foram colocadas à prova e o saldo foi, no mínimo, confuso. 
Desta experiência tirei outro importante aprendizado - o de que, por mais que tenhamos certeza de que estamos falando algo da maneira mais clara e polida possível, nem sempre é assim que será recebido pelo outro. Por mais absurdos que possam parecer no momento, é sempre fundamental que estejamos dispostos a ouvir feedbacks dissonantes daquilo que acreditamos estar fazendo e a parar para refletir se, de fato, nossa comunicação está sendo transmitida como achamos que está.
As hashtags #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto também contribuíram para longas reflexões, não por conta do conteúdo de cada uma delas - a indiscutível violência contra as mulheres - mas por conta de uma diferença fundamental na exposição feita em cada uma delas. 
Vale destacar que o foco aqui é muito mais em algo meu e de outros que percebi através deste contraste, do que uma crítica direta ao que essas manifestações pretenderam. 
No primeiro caso, pude perceber como é difícil, porém catártico conseguir falar de algo que nos faz muito mal. Não raramente somos apresentados a um modelo dicotômico de como lidar com nosso desconforto: "não engolir o sapo" x "engolir o choro". Os dois, obviamente, são bastante prejudiciais e foram, de maneira muito adequada, contrapostos pelo que aconteceu nos relatos do #meuprimeiroassedio. 
A descrição clara de uma situação aversiva e das consequências geradas pelo ato em si própria/o é um desafio constante no setting terapêutico e reflexo de um problema grave em nossa sociedade - o de como não somos ensinados a falar de nossos sentimentos e daquilo que nos faz mal, ou até mesmo daquilo que nos faz bem. Este é, de longe, um de meus principais desafios na terapia e, acredito, que de tantos outros clientes, também.
O modelo fornecido por essas mulheres é de grande importância tanto para que outras mulheres consigam fazer o mesmo, como para que pensemos no como tratamos nossos próprios desconfortos - se somos capazes de falar deles para nós mesmos e nos permitir perceber os efeitos daquilo em nós sem necessariamente buscar um culpado (nós mesmos ou quem tenha causado aquilo), mas visando nos conhecer melhor e nos "libertar" daquilo que nos corrói.
A segunda hashtag, no entanto, devo admitir, me causou desconforto. Não por saber que já fiz ou faço muitas das coisas relatadas, como levantar a voz e interromper uma colega que está falando, por exemplo. Este desconforto é evidente e necessário. 
É o modelo oferecido pelos relatos que me causa algum incômodo - e mais por me perceber fazendo algo parecido em outras situações que em nada se assemelham ao que foi colocado nos relatos do que por achar inadequada a tag. 
Em um primeiro momento fui seduzido pelo pensamento de que esses relatos deviam ser direcionados aos que estavam sendo contemplados por eles - por acreditar que isso poderia promover alguma mudança mais eficaz do que um relato público.
Logicamente, a tarefa é muito mais complexa do que parece. Quantos homens, ao ouvirem qualquer feedback deste tipo não reagiram violentamente contra suas companheiras ou colegas, acarretando até mesmo em morte. Quantas mulheres não foram ensinadas a não "retrucarem" justamente para evitar este tipo de represália.
Desta forma, é evidente que os relatos contidos no #meuamigosecreto tem função importante para instrumentalizar e oferecer espaço a muitas mulheres que não tinham antes dessa oportunidade. Além disso, para os homens que se dispuseram a ler tais relatos, ficou muito difícil não parar pra pensar na frequência com a qual fazemos muitas das coisas que ali foram descritas.
O que me gera desconforto neste modelo de relato, ao vê-lo reproduzido em outras situações cotidianas, é a aposta no constrangimento para provocar reflexão ou mudanças, o que me remete ao exemplo inicial que dei. Além disso, há o desconforto de perceber como eu também já reagi de maneira verbalmente abusiva a colocações que me desagradaram, ao me sentir constrangido.
É fundamental ressaltar que o sentimento de constrangimento não justifica a reação abusiva. Quem me conhece sabe bem de uma máxima do Behaviorismo Radical que repito com frequência: "sentimento não causa comportamento". O que ocorre, grosso modo, é que o sentimento de constrangimento - por ser desagradável - torna mais provável que nos comportemos de modo a afastar o sentimento ou a atacar aquilo que acreditamos gerar o desconforto. 
Desta forma, se reagimos abusivamente, não é por estarmos nos sentindo constrangido, mas sim porque queremos atacar quem nos constrange. Esta noção é importante, pois contradiz o discurso do "fiz porque fulano/a me irritou", mudando o foco para "fiz porque queria causar no outro o que ele causou em mim" - no caso específico de reagirmos abusivamente (nem todos vão reagir assim a uma situação como essa).
Há de se levar em consideração, entretanto, que determinados padrões de fala tem também uma probabilidade aumentada de gerar este tipo de reação. Isto não implica em algo deixar de ser dito, mas apenas em se repensar como se diz algo. Ignorar que algo que dizemos pode desagradar o outro em prol do como consideramos importante dizer o que queremos dizer é uma prática perigosa e pode se revelar tão aversiva como aquilo que pretendemos denunciar.
Tal fato é particularmente importante nas minhas vivências. O desafio em dizer algo que julgamos necessário de uma maneira que seja empática e assertiva é colossal, comparável apenas ao desafio de reagir a algo que nos foi dito e nos desagradou de maneira igualmente empática e assertiva.
O que eu tento evidenciar nesses exemplos é a tarefa hercúlea que é se comunicar. Certamente, o principal inimigo nesta empreitada são nossas certezas, nossas regras. As convicções que temos acerca do que comunicamos e as certezas que temos acerca do que nossos ouvintes entendem são os principais entraves para que uma comunicação possa ocorrer de maneira empática e assertiva.
Ser empático não é se colocar no lugar do outro tentando imaginar como nos sentiríamos ou como reagiríamos. Ser empático é estar sensível ao que o outro nos diz ou não diz (e não a o que achamos que ele vai dizer ou não dizer) e estar sensível também ao como nos sentimos em relação a isso para que, aí sim, consigamos nos comunicar assertivamente. 
A comunicação assertiva implica em saber estar sensível ao(s) outro(s), a si mesmo e ao momento e saber falar algo que queremos de maneira clara, objetiva e não "terceirizada" (focando apenas no outro), assim como também saber quando não falar. 
Existe uma lógica coercitiva extremamente difícil de se superar em como nos comunicamos. Esta lógica não é da direita ou da esquerda, minha ou sua. É de todos nós. 
Com absurda frequência ficamos apenas sensíveis ao como estamos nos sentindo para nos comunicar e obcecados pelas possíveis consequências que vislumbramos de falar algo de determinada maneira em determinado momento.
Sempre que escuto a máxima "o que falta é educação" eu sou levado a pensar, a partir da minha própria história de vida e de tantos outros, de que a educação que falta, a que fomos ensinados - geração após geração - a ignorar (ou talvez nunca tenhamos aprendido, de fato) é a educação em habilidades sociais, especialmente, no que diz respeito a como nos comunicamos. 
Estamos mais dispostos a continuar reproduzindo padrões punitivos do que a repensar modelos de comunicação que estamos ensinando e reforçando. 
Não se pode esperar padrões diferentes de comunicação - padrões não-coercitivos - se os modelos que reproduzimos no nosso dia a dia são coercitivos. 
Mais importante ainda é entender que a coerção não está na nossa intenção em coagir e sim, no efeito coercitivo que o outro diz ter sentido. Não raramente afirmamos que não tivemos a intenção ou que a pessoa está "na defensiva" ou tantas outras tentativas de anular o relato do outro, não por sermos perversos, mas por também não termos sido ensinados a fazer diferente.
O desafio que se apresenta ao nos darmos conta disto é não esperar que as pessoas "caiam na real" ou cair nas armadilhas do "mas como assim ele/a não percebe isso?", "como ele/a não se tocou que eu queria aquilo ou que eu quis dizer tal coisa?". Não podemos esperar de ninguém aquilo que não lhes pedimos. Também não podemos confundir despertar de consciência com constrangimento. Descrever a ação de alguém e as consequências de tal ação é possível de maneira empática e assertiva. 
Para que possamos fazer isso sem temer reações abusivas é essencial que o objetivo daquilo que reproduzimos seja cada vez maior o ensino de modelos de comunicação que tenham como foco a validação e acolhimento de ambas as partes.
O comportamento verbal (falado ou escrito), assim como qualquer outro comportamento, produz consequências as quais não podemos controlar totalmente, o que não nos torna menos responsáveis por elas, uma vez que também somos afetados por essas consequências. Se desejamos uma sociedade mais igualitária e relações de qualidade, temos que começar pela comunicação.
A minha meta pessoal e os meus votos para 2016 são de uma sociedade que saiba se comunicar melhor - empática e assertivamente.
Um próspero 2016 a todxs!

Total de visualizações de página